terça-feira, 20 de novembro de 2007

BEETHOVEN - MISSA SOLEMNIS, Op. 123

As circunstâncias físicas e psicológicas envolvidas na composição desta missa tiveram influencia direta em seu caráter artístico. Grandes obras de arte, muitas vezes nascem sem nenhuma razão externa, revelando-se apenas como uma necessidade interna de seu criador, o que não ocorreu nesta obra.
Em 1819, Beethoven soube que seu amigo, patrono e aluno, o Arquiduque Rudolf von Österreich (1788-1831) seria investido no cargo de arcebispo de Olmütz no ano seguinte. Beethoven pensou então em escrever uma grande missa solene para homenagear seu amigo, já que outras obras já tinham sido oferecidas e dedicadas ao ilustre amigo. Em razão deste evento importante, este motivo seria um bom pretexto para escrever uma missa, que também seria uma boa desculpa para participar do evento, por isso o motivo tornou-se um marco gerador de idéias para a criação desta obra.
Como a obra passou a tomar proporções inestimáveis, logo percebeu que a obra não estaria pronta a tempo de apresentar a missa completa. Ela foi apresentada parcialmente – os três primeiros movimentos - para Rudolf em Viena, apenas em maio de 1824. A única apresentação integral da obra em vida do compositor, foi em S. Petersburgo, por iniciativa do Príncipe Nikolai Borisovich Galitzine (1794-1866).
Beethoven antes de se dedicar à escrita da obra, resolveu dedicar-se à pesquisa dos elementos musicais e ao texto latino da missa romana. Não que Beethoven não conhecesse a liturgia, ele tinha uma formação católica, mas por ser em latim, Beethoven, precisava conhecer mais detalhadamente a inflexão da palavra. Com relação ao estudo dos elementos musicais anteriormente mencionados, Beethoven conhecia muito bem cada forma musical e suas estruturas, mas ele queria encarar essa obra sob uma nova luz, por isso dedicou-se a um estudo profundo da polifonia modal e música religiosa antiga.
Uma anotação no seu diário datada de 1819, Beethoven revela a sua preocupação ao escrever esta obra:

“Para escrever música sacra pesquise todos os corais monásticos religiosos, assim como as estrofes traduzidas da forma mais correta, salmos e hinos cristãos na sua metrificação perfeita”.

Esta obra de Beethoven encontra-se na terceira fase composicional, assim como a nova sinfonia e os últimos quartetos.
Musicalmente esta missa por sua notoriedade, oferece material de sobra para um estudo detalhado e fascinante e quase que inesgotável. A influencia da música litúrgica modal – Et incarnatus est (modo dórico), Et ressurexit (modo mixolídio) - é apenas um dos aspectos que podem abrir a gama de estudos. Um outro aspecto que pode ser base de estudo é a redescoberta de Beethoven da liberdade e da flexibilidade da estrutura melódica e da composição. Retomar o caminho natural da música foi a abertura de um caminho para a música de Wagner e Debussy, entre outros. Um outro elemento marcante de Beethoven nesta fase é a retomada da técnica da fuga do contraponto, técnicas que marcaram essa terceira fase de suas obras. Beethoven escreveu a um dos violinistas de sua época – Karl Holz (1798-1868) falando da fuga, da seguinte maneira:

“Fazer uma fuga não requer muito conhecimento – nos meus tempos de estudante fiz dúzias delas. Mas hoje a imaginação impõe suas regras e um elemento novo e verdadeiramente poético deve ser introduzido na forma tradicional”.

Os resultados dessa consciência podem ser observados no finale da sonata Hammerklavier, nas sonatas Op. 101 e 110, na sonata para cello em re Op. 102 no. 2, a abertura “miraculosa” do quarteto em do sustenido menor, sem deixar esquecer a Grosse Fugue que encerra o quarteto em si bemol maior. Esta verificação se impõe a quase todas as suas últimas composições.
Cada parte desta missa possui um sentido distinto e individual, apesar de estar inteiramente integrados a um todo. Beethoven centrou-se nas palavras e orações chaves para atingir o clímax de sua visão ardente. Beethoven também dava força à composição enquanto escrevia. Certa feita Anton Schindler (1795-1864) completou uma cena surpreendente. Beethoven escrevia o Credo, e ao entrar em sua casa em agosto de 1819, deparou-se com Beethoven cantando alucinadamente as partes e batendo com os pés no chão, mostrando sua total concentração e envolvimento com cada parte que escrevia.
O Kyrie inicial é dividido em três partes, expondo as súplicas, culminando no Gloria, atingindo o ponto máximo com a fuga em si bemol nas palavras Et vitam venturi seculi no Credo.O Sanctus inicia-se com o quarteto solistas. O Benedictus Beethoven supera-se ao inserir um violino solo obbligato acompanhado pelas vozes com o texto “Bendito é aquele que vem em nome do senhor”. Este momento evoca a consagração da hóstia no ritual católico. No Agnus Dei Beethoven atingiu um clímax espiritual inigualável. Dona nobis pacem é uma reflexão à paz interior da humanidade. O clamor dos trompetes e dos tambores com efeitos militares são colocados sobre as vozes dando ênfase à suplica cantada pelas vozes solistas. Alguns críticos acreditam que esta passagem tem uma inspiração colhida na Paukenmesse (Missa em tempo de guerra) de Haydn, que possui características muito semelhantes. Ainda no Agnus Dei, Beethoven dá um destaque aos solos das vozes graves (contralto e baixo), em contraste com a participação das demais vozes solistas que sempre se apresentam emolduradas pelas partes corais.
Embora a obra seja coral sinfônico, em muitas passagens a orquestra obtém um maior destaque pela ação dramática, destacando-se sobre as vozes.
Beethoven considerava esta missa uma de suas principais obras, era nela que ele achava ser sua melhor composição, foi nela que Beethoven dedicou mais tempo e estudo, quem sabe por isso ele a amava tanto. Beethoven escreveu o seguinte:

“Sacrifiquei uma vez mais todas as pequenas coisas da vida social pela arte. Oh, Deus acima de tudo!”

Texto de Burnett James, 1975 (encarte do LP Beethoven Missa Solemnis da EMI/Algel).

Um comentário:

duddo disse...

Obrigado pelo "momento cultural". Agradecer é o mínimo que eu posso fazer.
Realmente a Missa Solemnis é uma obra grandiosa. Diria mesmo, espantosa! É o sublime se materializando em música.
Infelizmente, poucos humanos terão o prazer de desfrutá-la, pois além de ser de difícil compreensão, é pouco acessível.
Tive uma grande alegria ao deparar-me com o seu texto.
Mais uma vez, obrigado.