terça-feira, 29 de julho de 2008

VILLA-LOBOS e a música coral "a cappella"

HEITOR VILLA-LOBOS (1887 – 1959)
A 5 de março de 1887, nascia Heitor Villa-Lobos, na Rua Ipiranga, bairro de Laranjeiras, Rio de Janeiro. Sua mãe, Noêmia Villa-Lobos, cuidava dos filhos e da casa. Seu pai, Raul Villa-Lobos, era funcionário da Biblioteca Nacional e dedicava-se à música, como amador.
Na casa dos Villa-Lobos, todos os sábados, nomes respeitados da época reuniam-se para tocar até altas horas da madrugada. Esse hábito, que durou anos, influiu decisivamente na formação musical de Villa-Lobos que, logo cedo, iniciou-se na música. Aos seis anos de idade, aprendeu a tocar violoncelo com o pai, em uma viola especialmente adaptada.
Foi também nessa época - e graças à sua tia Fifinha que lhe apresentou os Prelúdios e Fugas do "Cravo Bem Temperado" - que "Tuhú" (seu apelido de infância) fascinou-se pela obra de Johann Sebastian Bach, compositor que acabou por lhe servir de fonte de inspiração para a criação de um de seus mais importantes ciclos, o das nove "Bachianas Brasileiras".
Além da cidade do Rio de Janeiro, Villa-Lobos residiu com a família em cidades do interior do Estado e também de Minas Gerais. Nessas viagens, entrou em contato com uma música diferente da que estava acostumado a ouvir: modas caipiras, tocadores de viola, enfim, uma parte do folclore musical brasileiro que, mais tarde, viria a universalizar-se através de suas obras.
Ao voltar ao Rio de Janeiro, a música praticada nas ruas e praças da cidade também passou a exercer-lhe um atrativo especial. Era o "choro", composto e executado pelos "chorões", músicos que se reuniam regularmente para tocar por prazer e, ainda, em festas e durante o carnaval. Tal interesse levou-o a estudar violão escondido de seus pais, que não aprovavam sua aproximação com os autores daquele gênero, pois eram considerados marginais.
Com a morte de Raul Villa-Lobos, em 1899, D. Noêmia não conseguiu mais conter o filho. No início dos anos 20, como conseqüência desse envolvimento com o choro, começaria a compor um ciclo de quatorze obras, para as mais diversas formações, intitulado "Choros"; nascia aí uma nova forma musical, onde aquela música urbana se mesclava a modernas técnicas de composição.
Em l905, Villa-Lobos partiu em viagens pelo Brasil. Visitou os estados do Espírito Santo, Bahia e Pernambuco, passando temporadas em engenhos e fazendas do interior, em busca do folclore local. Tempos depois, seguia para outra viagem - uma excursão pelo interior dos estados do Norte e Nordeste - que se estenderia por mais de três anos. Foi nesse momento que teria conhecido a Amazônia - fato ainda não comprovado - o que teria marcado profundamente sua obra.
Por onde passava, Villa-Lobos ia recolhendo temas folclóricos que utilizaria em suas composições, como no "Uirapuru", e em seu futuro trabalho de educação musical, através da coleção "Guia Prático".
O ano de 1915 marca o início da apresentação oficial de Villa-Lobos como compositor, com uma série de concertos no Rio de Janeiro. Na época, casado com a pianista Lucília Guimarães, ganhava a vida tocando violoncelo nas orquestras dos teatros e cinemas cariocas, ao mesmo tempo que escrevia suas obras. Os jornais publicavam críticas contra a modernidade de sua música. Anos mais tarde, o compositor fez questão de explicar:

"Não escrevo dissonante para ser moderno. De maneira nenhuma. O que escrevo é conseqüência cósmica dos estudos que fiz, da síntese a que cheguei para espelhar uma natureza como a do Brasil. Quando procurei formar a minha cultura, guiado pelo meu próprio instinto e tirocínio, verifiquei que só poderia chegar a uma conclusão de saber consciente, pesquisando, estudando obras que, à primeira vista, nada tinham de musicais. Assim, o meu primeiro livro foi o mapa do Brasil, o Brasil que eu palmilhei, cidade por cidade, estado por estado, floresta por floresta, perscrutando a alma de uma terra. Depois, o caráter dos homens dessa terra. Depois, as maravilhas naturais dessa terra. Prossegui, confrontando esses meus estudos com obras estrangeiras, e procurei um ponto de apoio para firmar o personalismo e a inalterabilidade das minhas idéias".

No Brasil do início do século, a influência européia e a permanência do espírito conservador do fim de século incomodavam a juventude, que começava a reagir a tudo isso. Surgiu, então, um movimento chamado Modernista que, em fevereiro de l922, foi oficializado em São Paulo, através da Semana de Arte Moderna. Atividades de vários campos da arte foram apresentadas no Teatro Municipal daquela cidade. Convidado por Graça Aranha, Villa-Lobos aceitou participar dos três espetáculos da "Semana", apresentando, dentre outras obras, as "Danças Características Africanas".

Já bastante conhecido no meio musical brasileiro, alguns de seus amigos começaram a incentivá-lo a ir à Europa, e apresentaram à Câmara dos Deputados um projeto para financiar sua ida a Paris. A proposta foi aprovada e Villa-Lobos partiu, em l923, para o que seria sua primeira viagem ao Velho Continente. Chegou com mentalidade própria e se impôs em menos de um ano. Um grupo de amigos ajudou-o nas despesas e apresentou-o aos editores Max-Eschig, enquanto o pianista Arthur Rubinstein - que já o conhecia do Brasil - e a soprano Vera Janacópulus divulgavam suas obras em recitais por vários países.
De volta ao Rio de Janeiro, em 1924, Villa-Lobos foi assim saudado pelo poeta Manuel Bandeira:

"Villa-Lobos acaba de chegar de Paris. Quem chega de Paris espera-se que chegue cheio de Paris. Entretanto, Villa-Lobos chegou cheio de Villa-Lobos. Todavia uma coisa o abalou perigosamente: a "Sagração da Primavera", de Stravinsky. Foi, confessou-me ele, a maior emoção musical da sua vida.(...)".


Em l927, o compositor retornou a Paris para organizar concertos e publicar várias obras. Fez amigos, e muitos artistas de renome freqüentavam sua casa e participavam das feijoadas dos domingos. A partir dessa segunda temporada na capital francesa, ganhou prestígio internacional, apresentando suas composições em recitais e regendo orquestras nas principais capitais européias, causando forte impressão, ao mesmo tempo em que provocava reações por suas ousadias musicais.

No segundo semestre de 1930, Villa-Lobos - a convite - retornava provisoriamente ao Brasil para a realização de um concerto em São Paulo. Contudo, não previa que, neste seu retorno, estaria inaugurando um novo capítulo em sua biografia.
Villa-Lobos preocupava-se com o descaso com que a música era tratada nas escolas brasileiras e acabou por apresentar um revolucionário plano de Educação Musical à Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. A aprovação do seu projeto levou-o a mudar-se definitivamente para o Brasil.
Em 1931, reunindo representações de todas as classes sociais paulistas, organizou uma Concentração Orfeônica chamada "Exortação Cívica ", com a participação de cerca de 12 mil vozes.
Após dois anos de trabalho em São Paulo, Villa-Lobos foi convidado oficialmente pelo Secretário de Educação do Estado do Rio de Janeiro - Anísio Teixeira - para organizar e dirigir a Superintendência de Educação Musical e Artística (SEMA), que introduzia o ensino da Música e o Canto Coral nas escolas.
Como conseqüência do seu trabalho educativo, viajou de Zeppelin, em 1936, para a Europa, representando o Brasil no Congresso de Educação Musical em Praga.
Com o apoio do então Presidente da República, Getúlio Vargas, organizou Concentrações Orfeônicas grandiosas que chegaram a reunir, sob sua regência, até 40 mil escolares e, em 1942, terminou por criar o Conservatório Nacional de Canto Orfeônico, cujo objetivo era formar candidatos ao magistério orfeônico nas escolas primárias e secundárias, estudar e elaborar diretrizes para o ensino do Canto Orfeônico no Brasil, promover trabalhos de musicologia brasileira, realizar gravações de discos, etc.
O compositor das Américas chega aos Estados Unidos:

"Irei aos Estados Unidos somente quando os americanos quiserem me receber como eles recebem a um artista europeu, isto é, em razão das minhas próprias qualidades e não por considerações políticas..."

Apesar dessa resistência inicial (era o momento da chamada "política da boa vizinhança" praticada pelos EUA com aliados na 2ª Guerra Mundial), Villa-Lobos, convencido pelo Maestro Leopold Stokowski, seu amigo desde Paris, aceitou o convite do Maestro norte-americano Werner Janssen para uma turnê pelos EUA, em 1944.

A partir daí, retornou àquele país várias vezes, onde regeu e gravou suas obras, recebeu homenagens e encomendas de novas partituras, além de ter travado contato com grandes nomes da música norte-americana, fechando, assim, o ciclo de sua consagração internacional.
Villa-Lobos morreu de câncer em 17 de novembro de 1959, no Rio de Janeiro.

VILLA-LOBOS E A MÚSICA CORAL
"Sim sou brasileiro e bem brasileiro. Na minha música deixo cantar os rios e os mares deste grande Brasil. Eu não ponho breques nem freios, nem mordaça na exuberância tropical das nossas florestas e nossos céus, que transponho instintivamente para tudo que escrevo."
“A música é um elemento básico e insubstituível na formação espiritual de um povo. A sua função não se limita à importância da formação estética, mas a de assumir um caráter eminentemente socializador. Dentro desse conceito é que foi implantado o ensino da música e do canto orfeônico nas escolas brasileiras. Entretanto, para corresponder à sua verdadeira finalidade educacional, o canto orfeônico não deve limitar-se a uma simples exibição pública das qualidades musicais mais ou menos acentuadas da infância. Mas deve participar da vida cotidiana da escola, conferindo ao ambiente escolar uma impressão de sentimento cívico, de solidariedade e de disciplina”.
"A música é um fenômeno vivo da criação de um povo" Heitor Villa-Lobos

A música de Villa-Lobos reflete a alma sonora do Brasil e do povo brasileiro. Através de suas melodias, ritmos e efeitos musicais, empreendemos uma verdadeira e fantástica viagem través dos sons destes Brasis.

“Sim, sou brasileiro e bem brasileiro. Na minha música eu deixo cantar os rios e os mares deste grande Brasil. Eu não ponho breques nem freios, nem mordaça na exuberância tropical das nossas florestas e dos nossos céus, que eu transporto instintivamente para tudo o que escrevo...”

Villa-Lobos recorreu por mais de uma vez ao uso de um mesmo tema para diferentes formações instrumentais e, ainda, utilizando-se de concepções musicais distintas com diferentes meios de expressão.
Villa-Lobos tinha um grande sonho de fazer o Brasil cantar. A seguir alguns dos pensamentos de Villa-Lobos:


“Não se pode desejar que um país adolescente, em estado de formação histórica, se apresente desde logo com todos os seus aspectos étnicos e culturais perfeitamente definidos.Entretanto, o panorama geral da música brasileira, há dez anos atrás, era deveras entristecedor. Por essa época, de volta de uma das minhas viagens ao Velho Mundo,onde estive em contato com os grandes meios musicais e onde tive a oportunidade de estudar as organizações orfeônicas de vários países, volvi o olhar em torno e percebi a dolorosa realidade. Senti com melancolia que a atmosfera era de indiferença ou de absoluta incompreensão pela música racial, por essa grande música que faz a força das nacionalidades e que representa uma das mais altas aquisições do espírito humano..”

“Precisamente naquele momento o Brasil acabava de passar por uma transformação radical, já se esboçava uma nova era promissora de benéficas reformas políticas e sociais. O movimento renovador de 1930 traçara com segurança novas diretrizes políticas e culturais apontando ao Brasil rumos decisivos, de acordo com o seu processo lógico de evolução histórica. Cheio de fé na força poderosa da música, senti que com o advento desse Brasil Novo era chegado o momento de realizar uma alta e nobre missão educadora dentro da minha Pátria. Tinha um dever de gratidão para com esta terra que me desvendara generosamente tesouros inigualáveis de matéria-prima e de beleza musical. Era preciso pôr toda a minha energia a serviço da Pátria e da coletividade, utilizando a música como um meio de formação e de renovação moral, cívica e artística de um povo. Senti que era preciso dirigir o pensamento às crianças e ao povo. E resolvi iniciar uma campanha pelo ensino popular da música no Brasil, crente de que o canto orfeônico é uma fonte de energia cívica vitalizadora e um poderoso fator educacional. Com o auxílio das forças coordenadoras do atual Governo, essa campanha lançou raízes profundas, frutificou e hoje apresenta aspectos iniludíveis de sólida realização...”

Com o Decreto nº 19.890, de 18 de abril de 1931, sobre a reforma do ensino, referendado pelo Sr. Getúlio Vargas, tornou-se obrigatório o ensino do canto orfeônico nas escolas. Villa-Lobos começava a colocar em prática seu sonho. Então Villa-Lobos desenvolveu um profundo projeto de educação musical nas escolas através do Projeto de Canto Orfeônico, que organizava encontros e concentrações corais grandiosas de 40 mil alunos da rede pública em ginásios e estádios de futebol. Villa-Lobos implementou o projeto do canto orfeônico entre 1930 e 1945, os dois primeiros anos em São Paulo e o restante no Distrito Federal – Rio de Janeiro.
Seu sonho com este projeto era despertar o interesse dos jovens e formar um público para a música por meio do canto coletivo. Com o “Guia Prático” com 137 canções com peças para diversas formações desejava espalhar corais por todo o país em grandes manifestações cívicas ou coletivas. A prática coral nas escolas não visava a grandes artistas, mas preparar uma “fisionomia musical brasileira”, como ele mesmo disse num discurso pronunciado no Salão Assírio do Teatro Municipal do Rio de Janeiro em 15 de outubro de 1939.
Em 1933, Anísio Teixeira, Secretário de Educação do Estado do Rio de Janeiro, convidou Villa-Lobos para organizar e administrar a Superintendência de Educação Musical e Artística SEMA - (Superintendência de Educação Musical e Artística), que introduzia o ensino da Música e o Canto Coral nas escolas. Durante o período em que dirigiu a SEMA do Distrito Federal (Rio de Janeiro), Villa-Lobos realizou ambientações e arranjos para coro de muitas obras. As Concentrações Orfeônicas de Villa-Lobos chegaram a reunir aproximadamente 40 mil estudantes em estádios e praças públicas. Em 1942 criou o Conservatório Nacional de Canto Orfeônico, formando professores para as escolas primárias e secundárias e estabelecendo diretrizes para o ensino da música.
O poeta Carlos Drummond de Andrade lembra comovido:

"Quem o viu um dia comandando o coro de 40 000 mil vozes adolescentes, no estádio do Vasco da Gama, não pode esquecê-lo nunca. Era a fúria organizando-se em ritmo, tornando-se melodia e criando a comunhão mais generosa, ardente e purificadora que seria possível conceber".

O maior destaque desse ciclo foi a apresentação da "Missa em Si menor" de Bach, cuja primeira audição no Brasil, comemorando os 250 anos do alemão, se deu através do Orfeão de Professores no Teatro Municipal do Rio, em 9 de novembro e 11 de dezembro de 1935. O Orfeão era um coro de cerca de 250 professores das redes municipal, federal e particular da Capital da República, criado por Villa em 1932.

Villa-Lobos não só escreveu obras de coro para o SEMA, mas também obras corais com e sem orquestra que estão entre as principais obras do compositor, como a IV Suíte do Descobrimento do Brasil, Choros 10 (Rasga Coração), Manduçarara, Invocação em Defesa da Pátria e o Magnificat-Alleluia.
As obras para coro – excluindo-se desta lista as óperas e ballets com vozes solistas e/ou coro de qualquer tipo - de Villa-Lobos estão classificadas em 4 grandes categorias

I. A MÚSICA CORAL “A CAPPELLA”: Constam no catálogo 108 obras corais “a cappella”. Villa-Lobos desenvolveu um grande trabalho de criações e adaptações não só na música sacra como na música secular. Nesta modalidade não estão incluídas as obras contidas nas coletâneas do CANTO ORFEÔNICO I e CANTO ORFEÔNICO II e no GUIA PRÁTICO. As obras foram escritas para diversas formações vocais, que vão de córos em uníssono a obras para coro com diversas vozes subdivididas.

II. CORO E INSTRUMENTOS: no catálogo constam apenas 26 obras que vão do acompanhamento de um harmonium como “Salutaris” (1905) a obras com instrumentos de percussão diversas, obra para tenor solista e coro a quatro vozes, na obra “Regozijo de uma raça” (1937).

III. CORO E BANDA: existem catalogadas apenas 3 obras que são obras cívicas.

IV. CORO E ORQUESTRA: no catálogo contam apenas 20 obras. Dentro essas obras estão as principais obras do compositor para coro, como é o caso do “Choros 10” (1926), “IV Suíte do Descobrimento do Brasil” (1937), Magnificat-Alleluia (versão orquestral de 1958) Manduçarara (versão orquestral de 1940).

Ao analisar a obra de Villa-Lobos partindo não só do ponto de vista do acompanhamento, mas a partir da função a que sua música se destinava ou originava eu subdividiria ainda da seguinte forma:

1. MÚSICA EDUCACIONAL: realizada para o projeto do SEMA como as obras publicadas no CANTO ORFEÔNICO (1959, 1950) coletâneas integradas por 40 e 45 obras e no GUIA PRÁTICO (1932) – coletânea integrada por 137 obras em estilos e formações variadas.

2. MÚSICA SECULAR E FOLCLÓRICA: temos como exemplo “Na Bahia tem” (1926) “Rosa Amarela” (1932), “Estrela é lua nova” (1933), “Danças Ameríndias” (1952) entre muitas outras.

3. MÚSICA SACRA: (acompanhadas por instrumentos ou “a cappella”): “Bendita Sabedoria” (1958), “Ave Maria” (1914, 1916, 1917, 1918, 1938, 1948, etc) , “Pater Noster” (1910, 1914, 1950), “Vidapura : Missa Oratório” (1919), “Missa São Sebastião” (1937) entre outras.

4. MÚSICA CORAL DIVERSA: que pode ser a música de concerto, como é o caso da “Bachianas Brasileiras No. 9” (1945) para orquestra de vozes “ou seja coro a cappella” a 6 vozes com subdivisões.

5. MÚSICA CÍVICA: “Invocação em Defesa da Pátria” (1943), sobre poesia de Manuel Bandeira, para soprano, coro e orquestra - nomeada "canto cívico-religioso".

Todo este movimento coral implementado por Villa-Lobos contribui de forma clara para a propagação de inúmeros corais por todo o país, com maior destaque nos Estados de S. Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. A obra coral de Villa-Lobos influenciou de alguma forma o destino da música brasileira, não só no repertório coral, mas também muitas contribuições para a música brasileira em geral. A grande proximidade com todos os tipos de linguagem musical de seu tempo quebrou barreiras entre a chamada música erudita e a música popular no seu âmbito mais geral. A obra coral de Villa-Lobos ultrapassou os limites de seu tempo, estimulando compositores a criarem mais obras destinadas aos corais brasileiros e universais.
Villa-Lobos é um ilustre desconhecido do grande público, e é através deste projeto que pretendemos trazer o melhor da música de Villa-Lobos e mostrar a todos a grande importancia que este mestre exerceu e exerce na nossa e universal música brasileira.

ALGUMAS OBRAS PARA CORO "a cappella":

MISSA S. SEBASTIÃO
1. Kyrie
2. Gloria
3. Credo
4. Sanctus
5. Benedictus
6. Agnus Dei
Foi escrita entre dezembro de 1936 e janeiro de 1937 e foi dedicada ao Frei Pedro Zinzig, destinada ao ‘orfeão” dos professores. Foi apresentada pela primeira vez no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, pelo próprio orfeão de professores, sob a regência de Villa-Lobos em 13 de novembro de 1937.
Originalmente a Missa foi escrita para três vozes iguais, mas ele mesmo deixa aberta a possibilidade de ser cantada com vozes oitavadas.
O título foi escolhido para homenagear o padroeiro do Rio de Janeiro – S. Sebastião.
A missa segue o ordinário da Missa – partes fixas da missa: Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus, Benedictus e Agnus Dei – e para cada dessas partes Villa-Lobos escreveu um recitativo que precede cada movimento. Os textos dos recitativos são os seguintes:
1. Kyrie – Sebastião! O virtuose
2. Gloria – Sebastião! Soldado Romano
3. Credo – Sebastião! Defensor da Igreja
4. Sanctus – Sebastião! O mártir
5. Benedictus – Sebastião! O santo
6. Agnus Dei – Sebastião! Protetor do Brasil
A Missa mistura melodias de caráter gregoriano e melodias do candomblé, por ele assim definido:

“Música escrita com fé, imaginação disciplinada e sentimento religioso. Mais perto do estilo sacro que do meu próprio estilo. No Credo, as palavras Et Sepultus Est, a melodia inspira-se em motivos do candomblé.(...) A melodia principal do Sanctus é escrita intencionalmente no estilo lírico das músicas religiosas, antigas e sentimentais do Brasil”.

Villa-Lobos trabalha esta obra buscando evidenciar os aspectos timbrísticos das vozes e os contrastes provocados pelas diversas tessituras vocais, que em algumas passagens chegam a se cruzar, utilizando uma escrita homofônica e polifônica.
A Missa foi cantada por ocasião de seu funeral na escadaria do Teatro Municipal do Rio de Janeiro a uma quadra de sua residência.

BENDITA SABEDORIA
1. Adagio
2. Andantino
3. Quase Allegretto
4. Allegro
5. Andante
6. Largo imponente
É um conjunto de seis peças curtas para coro misto a 8 vozes “a cappella”. Foi escrita em Paris em 1958 por solicitação de Carlton Sprague, dedicado à Universidade de N. York.
A primeira audição deu-se em New York, por ocasião da última viagem realizada pelo compositor aos EUA. Foi apresentada a 02 dezembro de 1958 no encerramento da reunião intitulada “Semana do Brasil” realizada pela Universidade, interpretada pelo College Chorus da referida instituição sob a regência de Maurice Paresse.
O texto é em latim e está baseado em textos bíblicos do livro de Provérbios e dos Salmos como segue abaixo:
Os textos que servirão de base para a obra são os seguintes:
1. Adagio – Provérbios 1:20 - "Grita na rua a sabedoria, nas praças, levanta a voz"
2. Andantino - Provérbios 20:15b - "Os lábios instruídos são jóia preciosa"
3. Quase Allegretto – Provérbios 4:7A - "O princípio da sabedoria é: adquirir sabedoria"
4. Allegro – Provérbios 25:5 - "Mais poder tem o sábio do que o forte"
5. Andante – Provérbios 3:13-14 - "Feliz é o homem que acha sabedoria,e o homem que adquire conhecimento; porque melhor é o lucro que ela dá do que a prata, e melhor a sua renda do que o ouro mais fino"
6. Largo imponente – Salmos 92:20 - "Ensina-nos a contar nossos dias, para que alcancemos coração sábio"
Algumas exclamações e sílabas são adicionadas ao texto bíblico com o intuito de criar alguns efeitos timbrísticos e de acompanhamento. Villa-Lobos utiliza-se de uma escrita polifônica e homofônica.
A obra é considerada uma das obras de grande dificuldade de execução por sua linguagem harmônica, que poderia ser mais apropriada a um grupo instrumental, no entanto obra de rara beleza.
O escritor, repórter, articulista, cronista e crítico de cinema Adhemar Nóbrega fala sobre esta obra de Villa-Lobos:

“Os corais diferem ainda entre si pelo espírito que os anima: uns são solenes e místicos, outros de uma leveza raveliana, os de No. 2 e 5, por exemplo, animados da jovialidade de breves e deliciosos ‘Scherzi’. Em todos eles, porém, a marca do gênio de Villa-Lobos, sempre novo e imprevisível”

Foi a última obra para coro “a cappella” escrita pelo compositor.

BACHIANAS BRASILEIRAS No. 9

1. Prelúdio – vagaroso e místico
2. Fuga – poco apressado
Bachianas Brasileiras é uma série de nove obras escritas para diversas formações (incluem obras orquestrais e vocais), compostas entre 1930 e 1945, onde o compositor busca uma síntese entre os matizes musicais brasileiros e a estética do compositor alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750), de quem ele era grande admirador.
Escrita em 1945 na cidade de New York nos EUA. Originalmente escrita para “orquestra de vozes” (conforme nomenclatura original do próprio Villa-Lobos) - coro a 6 vozes “a cappella” - depois convertida para orquestra de cordas, versão mais conhecida atualmente. A versão para coro é dedicada ao compositor americano Aaron Copland (1900-1990).
A versão orquestral estreou no Rio de Janeiro a 17 de novembro de 1948 sob a regência do maestro Eleazar de Carvalho e a versão para vozes estreou apenas a 25 de outubro de 1975 no Rio de Janeiro, na Sala Cecília Meireles, pelo coro Artis Canticum, sob a regência do maestro Nelson de Macedo.
Villa-Lobos denomina essa obra de “Orquestra de Vozes” porque encontra nas vozes humanas de um coro misto todos os recursos timbrísticos e efeitos onomatopaicos necessários de sílabas e vogais da palavra cantada. Utiliza uma escrita homofônica no primeiro movimento e uma escrita polifônica no segundo movimento.
Villa-Lobos informa que nesta obra:

“modela dinamismos ameríndios, prolongadas num plano lírico, místico e sentimental, assinalando, ainda como uma irregularidade rítmica e acentuação dinâmica singular própria do gênio nativo, do qual procede sua inspiração.”

Villa-Lobos ainda falando sobre a obra, comenta:

“Nesta obra se sobrepõem as ambientações e atmosferas de Bach, pelo rigor de seu estilo apesar da politonia empregada e a dos ameríndios brasileiros, pela sua singular e irregularidade rítmica, seus incidentes acentos dinâmicos, embora com lances místicos, líricos e sentimentais.”

É uma das obras mais difíceis de ser executada no repertório de coro “a cappella” por suas características harmônicas, contrapontísticas, polifônicas e rítmicas. Poucos são os grupos vocais do planeta que se atrevem a cantar esta obra.

AVE MARIA No. 17
Antífona em honra à Virgem Maria. Escrita no Rio de Janeiro em 1938.
Villa-Lobos é autor de diversos “Ave Maria”. Esta é indicada no seu catálogo geral como sendo a de No. 17 e está escrita para 6 vozes - SCCTBB. Usa a íntegra do texto litúrgico e está escrita em português.

ESTRELA É LUA NOVA
Canto fetiche de Macumba dedicada a Elsie Houston, datada de 1929. É uma “Canção típica brasileira”, um canto fetiche de Macumba. A obra foi dedicada a Elsie Houston, filha de James Franklin Houston, um dentista norte-americano de Tennessee que se estabeleceu no Rio de Janeiro em 1892, e de Arinda Galdo, uma carioca descendente de portugueses da Ilha da Madeira.

ROSA AMARELA
Com a implementação do sistema de canto orfeônico nas escolas públicas, com o objetivo de fomentar a educação artística, Villa-Lobos com o objetivo de dar subsídios aos professores de música, elaborou uma série de coletâneas com músicas que iam da música folclórica a diversas peças do repertório erudito universal, editadas pela Casa Arthur Napoleão no Rio de Janeiro, sob o título “Coleção Escolar”. Constava da folha de rosto, a seguinte observação: “Arranjadas e adotadas por H. Villa-Lobos para educação artística musical do Departamento de Educação.” Muitas dessas peças editadas separadamente, vieram a constituir mais tarde o “Guia Prático”, que era formado pela reunião de 137 canções folclóricas. Dentro dessas encontrava-se a “Rosa Amarela”.

BALAIO
Música típica do Rio Grande do Sul

DUAS DANÇAS AMERÍNDIAS
Villa-Lobos utilizou-se de muitas informações amerídias para escrever diversas obra suas, como por exemplo na IV Suíte do Descobrimento do Brasil e a própria Bachianas Brasileiras No. 9 mencionada neste texto.
Estas duas danças são baseadas na lenda de JURUPARI.

"A Lenda de Jurupari" conta a história de uma guerra imperialista, de uma guerra de imposição de outros costumes. A existência da lenda deve estar ligada à história do Uaupés, onde as práticas das proibições e tabus ligados aos rituais de Jurupari são observados por povos indígenas distintos.
Partindo dessa situação é fácil entender o porquê do personagem Jurupari ser retratado como um grande herói em algumas histórias - as histórias daqueles povos que impuseram seus costumes - e ser pintado como um demônio em outras histórias - provavelmente as lendas originais dos povos que eram dominados.
A chegada à região de missionários franciscanos e salesianos, no fim do século XIX, representou uma segunda "guerra pela imposição de novos costumes" aos povos indígenas do Uaupés. O Jurupari é um personagem que aparece em inúmeras lendas amazônicas. Em algumas histórias é retratado como um herói que trouxe ordem ao mundo, em outras aparece como um temível demônio. Às vezes chamado de "filho do Sol", outras vezes de "filho do Trovão". O fato é que Jurupari está presente na mitologia de diversos povos indígenas, notadamente os que vivem na região de fronteira entre Brasil e Colômbia.

NA BAHIA TEM
Datada no Rio de Janeiro em 1926. Tema popular infantil. A partitura está dedicada a Piero Coppola. Originalmente foi escrita para vozes masculinas – TTBrBx.

BIBLIOGRAFIA
DUARTE, Roberto – Revisão das obras Orquestrais de Villa-Lobos – Vol. 1. Universidade Federal Fluminense. Niteroi, 1989
DUARTE, Roberto – Revisão das obras Orquestrais de Villa-Lobos – Vol. 2. Universidade Federal Fluminense. Niteroi, 1994
HORTA, Luiz Paulo – Villa-Lobos uma introdução. Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro, 1987.
KIEFER, Bruno – Villa-Lobos e o modernismo na música brasileira. Editora Movimento. Porto Alegre, 1986.
LISBOA, Alessandra Coutinho - Villa-Lobos e o canto orfeônico: música, nacionalismo e ideal civilizador. UNESP, São Paulo, 2005.
MUSEU VILLA LOBOS - VILLA-LOBOS e sua obra – Catálogo de obras. MINC – SPHAN/Pró-Memória – Museu Villa-Lobos. Rio de Janeiro, 1989.
PALMA, Enos da Costa & CHAVES JUNIOR, Edgard de Brito – As Bachianas Brasileiras de Villa-Lobos.Companhia Editora Americana. Rio de Janeiro, 1971.
PAZ, Ermelinda A. - Villa-Lobos e a música popular brasileira. Trabalho laureado em 1987, no Concurso de Monografia, Villa-Lobos e a Música Popular Brasileira, promovido pelo Museu Villa-Lobos, em comemoração ao centenário de nascimento do compositor. Museu Villa-Lobos. Rio de Janeiro, 2004.
______________ - Heitor Villa-Lobos o Educador. Trabalho laureado em 1988, no Concurso de Monografia - Premio grandes educadores brasileiros. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais. Brasília, 1989.
PEREIRA, Hoffmann Urquiza - A conductor's study of villa-lobos's Magnificat–Alleluia and Bendita Sabedoria- A Monograph Submitted to the Graduate Faculty of the Louisiana State University and Agricultural and Mechanical College in partial fulfillment of the requirements for the degree of Doctor of Musical Arts in The School of Music. Louisiana, 2005
PIMENTA, Josani Keunecke - Missa Sebastião e Bendita Sabedoria. Tese para a obtenção de Mestrado em Artes. Universidade Estadual de Campinas. Campinas 2003.

BIBLIOGRAFIA NA WEB
http://www.revista.akademie-brasil-europa.org/CM22-04.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Heitor_Villa-Lobos
http://www.brasileirinho.mus.br/artigos/bachvilla.htm

2 comentários:

Magno José de Werneck Lustosa Lustosa disse...

Tenho certeza absoluta, que os tristes cenários apresentados por nossa sociedade são pela falta principalmente do "Canto Coral" em todas as faixas de ensino.
Essa poderosa arma contra os desmandos existentes, levam o indivíduo a uma viagem interior no momento dos ensaios e apresentações fazendo-o refletir talvez em momento impar sobre estrofes, colcheias, fusas e semifusas.
O esconder de H. V. Lobos e o esquecimento da batuta de Isac Karabtchevsky, também fizeram compor acordes dissonantes que agridem nossa audição pelo lamento gemido de uma sociedade sem civismo.
Bom seria se sempre entoássemos em nosso cotidiano a magna obra "Invocação em Defesa da Pátria". Aí sim a Pátria sorriria emocionada pela gratidão.

Emanuel Martinez disse...

Com certeza Magno. Eu sou um apaixonado por toda a música de Villa-Lobos e infelizmente é um dos nossos compositores maiorais de todos os tempos. Seu repertório é grandioso passando por muitas combinações e gêneros musicais. Pena que poucos o conhecem e menos ainda o tocam. Abraços e obrigado por seu comentário.